Os Oito Princípios do Associativismo

Autor: Gilmar Barboza

Talvez a primeira guerra de amplitude verdadeiramente global seja travada agora, por ocasião da pandemia do coronavírus, por atingir indistintamente quase todos os países do mundo e por não estabelecer diferenças entre classes sociais, etnias e territórios.

Os oito princípios do associativismo livre adesão; gestão democrática; participação econômica dos sócios; autonomia; aperfeiçoamento contínuo e investimento em educação; integração entre associados; compromisso com a comunidade; e disseminação do associativismo representam uma alternativa para reorganização da sociedade em um mundo a ser erguido sob a égide do ‘novo normal’.

 

Livre Adesão

Um dos aspectos diferenciais do movimento associativo refere-se ao fato de as pessoas se unirem de forma espontânea em torno de uma agremiação e de interesses comuns. Essa participação voluntária confere a entidades empresariais e comunitárias legitimidade, pois o processo de filiação não se dá de forma compulsória.

O princípio da livre adesão, entre outros fatores de diferenciação, permite aos associados que se unam por afinidades, de modo a tornar mais coesas suas ações em prol do segmento ou causa que representam.

De forma tão frequente quanto possível, os gestores destas organizações devem analisar criticamente se a atuação e estrutura vigentes proporcionam satisfação e percepção de valor por parte significativa do quadro social. Além disso, cabe avaliar quais iniciativas podem ser promovidas para melhorar os níveis de desempenho registrados, perante todos os atores-chave envolvidos em seu processo de desenvolvimento institucional, bem como zelar pela condição de atratividade e acolhimento permanente de novos associados.

 

Gestão democrática

A expressão máxima de igualdade e da prática democrática, em uma entidade associativa, refere-se à paridade existente em relação ao voto do associado, ou seja, cada filiado à organização detém o mesmo poder de influência em suas decisões de caráter majoritário, sem distinção de posição econômica, ramo de atividade, prestígio ou tempo de filiação de quaisquer associados, que integram o quadro social da entidade.

Em geral, o estatuto de entidades associativas assegura que todo filiado possa ser elegível para ocupação de cargos diretivos em seu processo sucessório e inibe restrições que denunciem preconceito ou tendenciosidade em sua estrutura decisória.

Outro aspecto de interesse em uma gestão democrática é o caráter de transitoriedade das lideranças. Ainda que certo grupo de pessoas ou lideranças sejam imprescindíveis para a ascensão da entidade, devem-se estabelecer adequadas condições de formação e ou inserção de novas lideranças que contribuam para o permanente processo de oxigenação da organização associativa.

É essencial que a entidade associativa preste contas a variados públicos de interesse acerca de suas fontes de receitas, despesas e em relação aos aspectos principais de seu funcionamento cotidiano, pois a transparência não é somente um dos pilares do associativismo, mas também da Responsabilidade Social Empresarial (RSE) e dos princípios que regem sociedades livres e modernas.

 

Participação econômica dos sócios

O modelo de livre adesão, numa organização associativa, pressupõe estabelecer mecanismos de custeio e financiamento da entidade por meio de contribuições voluntárias, embora possa haver a prática de mensalidades distintas para diferentes categorias de associados, bem como mecanismos alternativos para geração de receitas.

Associações de vanguarda tendem a trocar a cobrança de mensalidades pela prestação de serviços e pela competência específica de elaborar, gerir projetos e constituir alianças estratégicas. Assim, o tradicional questionamento sobre o porquê de filiar-se à entidade se rende à percepção de valor gerada pelo evidente resultado econômico, financeiro ou social produzido para seus beneficiários.

 

Autonomia

Para que a organização associativa alcance uma posição de independência política e financeira é essencial que algumas posturas sejam adotadas em seu dia a dia, a iniciar-se pela atitude de seus dirigentes que deve ser apartidária, embora não apolítica. Isto significa desfraldar bandeiras e defender causas de interesse de seu quadro social perante agentes públicos e privados, mas com o evidente objeto de promover o bem comum da comunidade ou sociedade em que se insere.

Também há que haver preocupação quanto à criação de mecanismos de financiamento e custeio de suas atividades. Ter receitas próprias significa ser “dono do próprio nariz” e, por conseguinte, ter maior propensão à independência em todas as dimensões de atuação de uma organização social.

O tema representatividade é outro que se vincula à autonomia da entidade associativa.  Mas afinal de contas, o que é conceber uma entidade representativa? Intuitivamente pode-se responder que é possuir um grande número de associados. E isso, por si só, é o suficiente para que seja ostentado o status de representatividade? Esta condição deve ser ampliada à capacidade de o ente associativo ser legítimo porta-voz e articulador dos interesses dos representados.

É desejável, portanto, que reúna em seu quadro social e em sua diretoria, representantes dos mais variados segmentos do recorte territorial em que se situa. Essa atitude tende a ampliar os horizontes de atuação da entidade, bem como seu reconhecimento social, capacidade de mobilização e articulação institucional.

No exercício do apoio à criação do ambiente apropriado ao desenvolvimento  local – e toda entidade de referência deve contribuir para este status – é natural que a entidade assuma um papel de articulação institucional e de controle social dos poderes constituídos por meio, por exemplo, da participação em audiências públicas, da invocação da Lei da Transparência e do acompanhamento de pautas do Executivo e do Legislativo.

 

Aperfeiçoamento contínuo e valorização da educação

De uma forma geral, a importância do associativismo é reconhecida por toda sociedade, mas, infelizmente, a educação para o associativismo não faz parte das grades curriculares de escolas ou universidades e nem das estratégias habituais de capacitação adotadas por entidades associativas. Não por acaso, o Brasil conta com um grande número de organizações associativas, mas com um pequeno contingente de pessoas devidamente preparadas para atuação cotidiana nestas entidades.  Por isto, lideranças associativas precisam assumir relevante papel na preparação de quadros para o associativismo e para a edificação de uma cultura da cooperação a ser disseminada por toda sociedade.

Igual preocupação deve-se ter quanto à profissionalização da gestão da entidade. Apesar da inegável relevância do papel, usualmente, voluntário de dirigentes associativos, é essencial contar com a adequada tecnologia de gestão para o alcance de pleno êxito pela entidade.

A formação e animação de redes constituídas por lideranças empresariais e comunitárias configura-se como outro desafio. Embora se diga que líderes nascem prontos, todo e qualquer indivíduo prescinde de continuado processo de formação e aperfeiçoamento pessoal. Quando esta análise se estende ao funcionamento de redes de cooperação, ações permanentes de educação funcionam como a argamassa que dá coesão a grandes edificações.

 

Interação entre associados

O êxito de uma entidade associativa, no cumprimento de sua missão institucional, pressupõe reunir e organizar os diferentes segmentos que representa, tanto em torno de ações técnicas e de mobilização quanto em relação a ações festivas, de congraçamento, premiação e aprendizagem.

No caso específico de entidades associativas empresariais, tem sido debatida a relevância do tema ‘cooperação para a competitividade’. Isto significa que, quando concorrentes se irmanam para comprar e vender em conjunto; buscar acesso a novas tecnologias, a crédito e à inovação; ratear custos de capacitação e qualificação profissional; compartilhar estruturas logísticas, bem como atuar na formulação e articulação de políticas de interesse setorial, tornam-se mais fortes e, a pressuposta competição predatória, se verte em vantagem competitiva. Raciocínio similar se estende a entidades de cunho comunitário que se organizam para mediar perante agentes públicos e privados o suprimento às suas necessidades.

 

Compromisso com a comunidade

Embora uma entidade associativa atenda prevalentemente aos interesses de seus filiados, uma importante componente de sua práxis diária, em relação ao público externo, é a atuação em prol da comunidade. Este princípio pode ser traduzido pela  implantação de projetos e serviços de interesse público e social.

Algumas entidades associativas apoiam e gerem iniciativas que se vinculam a programas especiais ou mesmo a serviços prestados pela entidade, entre os quais podem ser enumerados: encaminhamento a empregos; controle de estacionamento; gestão de guardas municipais; revitalização de centros comerciais; ações de capacitação e qualificação profissional, além de extenso rol de possibilidades de composição de projetos.

Ações de voluntariado, que, além de atitudes de cunho assistencial, devem se estender ao assessoramento e aconselhamento a empresas e cidadãos, contribuem para a valorização das competências do quadro de constituintes da organização associativa e para a construção de relevantes laços comunitários.

Na esfera das ações promocionais, podem ser realizadas palestras e eventos esporádicos relativos a temas de variada natureza como saúde preventiva, economia doméstica, comércio justo, empreendedorismo, nova economia, sustentabilidade e meio ambiente entre outros temas de interesse comunitário e empresarial. Os profissionais e cidadãos que integram o quadro social da entidade, em ação coordenada com outras instituições e personalidades locais, podem se mobilizar para a organização dessas iniciativas.

Também é habitual a realização de ações beneficentes relativas à arrecadação de alimentos, brinquedos, materiais escolares e agasalhos para pessoas carentes e a promoção de campanhas de donativos, por ocasião da incidência de catástrofes naturais como enchentes, secas prolongadas e epidemias.

 

Disseminação da cultura da cooperação

Uma das estratégias a serem adotadas pela entidade na promoção do associativismo, é a realização de eventos específicos atinentes ao fortalecimento da cultura da cooperação dirigidos a seu quadro social e à comunidade.

A inserção de conteúdos programáticos curriculares nas redes de ensino púbica e privada representa uma dos elementos de reconhecimento deste tema para a construção de relações sociais saudáveis e de territórios prósperos. Concursos, gincanas, prêmios e eventos tendem a reiterar o interesse e o quórum qualificado nestas iniciativas, com a ressalva de que, preferencialmente, venham a ser incorporadas a estratégias permanentes de enraizamento do associativismo na localidade de intervenção da entidade associativa.

O investimento em novas gerações de empreendedores e empresários pode ganhar consistência mediante implementação de ações que envolvam, por exemplo, grupos familiares de associados e de colaboradores da entidade, com faixa etária compreendida entre 12 e 18 anos e, eventualmente, de jovens empreendedores da comunidade para a troca de experiências, promoção de missões associativas, realização de estudos de caso e para o aprofundamento de discussões e interesses relativos à atividade empreendedora (associativismo jovem).  Um outro aspecto relevante dessa iniciativa, é a formação de novas lideranças empresariais e de empreendedores sociais, de modo a assegurar a ampliação e continuidade da cultura associativa da entidade.

Proporcionar a crianças, adolescentes e jovens exercícios de experimentação sobre o tema associativismo representa semear em solo fértil e contar de antemão com farta colheita.

Uma contradição à disseminação da cultura associativa é a quase que inexistência de eventos ou ações integrados entre várias entidades, de cunho associativo, para promoção dos temas cultura da cooperação e do associativismo. No melhor estilo ‘estica e puxa’ parece haver pouco capital social e percepção da importância de se fazerem ações consorciadas que enalteçam a relevância da cooperação para o desenvolvimento sustentável. Uma boa provocação para as mais de 70 mil organizações associativas em atividade no país.

O atual momento torna evidente a necessidade de estas instituições liderarem o processo de reorganização social e econômica em suas comunidades. A melhor forma de enfrentamento a qualquer tormenta, seja ela qual for, é dispor de cidadãos e instituições autônomos, profissionalizados e imbuídos de um sentimento de coletividade e visão de futuro.

A Escola de Associativismo está desenvolvendo, em conjunto com o SENAI do Espírito Santo curso de Ensino à Distância para Conselheiros do SENAI e SESI do Espírito Santo. Um dos itens do curso é o Manual do Conselheiro, que está na sua primeira versão e integra a primeira parte do curso cujo objetivo é dar ferramentas aos conselheiros para o bom exercício de suas tarefas.

A primeira versão do Manual do Conselheiro e a estrutura final desta etapa do curso foi aprovada pelo Diretor da Escola, Sérgio Rogério de Castro. A previsão inicial é que o novo curso esteja disponível e pronto para lançamento no mês de abril. É mais uma ação da Escola de Associativismo em favor do aperfeiçoamento do associativismo no Espírito Santo.